quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Os 130 quilômetros mais duros do caminho.

O início do dia.

No hospital de Maricá, depois de escrever aquele post, eu descobri que do lado de dentro não podia deitar (o amigo da foto no primeiro post logo depois foi perturbado pelo guarda municipal) e no banquinho de fora, apesar de estar bem seguro, com água e banheiro por perto, o frio era insuportável. Isso funciona assim para impedir que os moradores de rua de Maricá tenham um lugar seguro e razoavelmente não-violento para descansar. Ou seja:  não dormi nem duas horas.

Pelo menos me estimulou a sair bem cedo, e antes de 6:30 eu já estava pegando a estrada da Gamboa, rumo ao litoral de saquarema, para evitar as subidas mais acirradas da Amaral Peixoto. Logo cedo, na estrada de terra, consegui um pão com manteiga, água e uma maçã, em um bar desses de interior. Tinha pedido água e uma fruta, ganhei o pão com manteiga de camaradagem.

Só que, conforme eu ia me aproximando do litoral, variando entre estradas de terra e asfaltadas, o chão ia ficando mais arenoso e o vento começou a castigar muito cruelmente. A mochila estava se tornando insuportável, e chegando à beira mar em Jaconé eu decidi, já que tinha partido bem cedo, descansar a mochila e ir andando. Com aquele vento, o chão de terra, e a mochila, se eu não parasse eventualmente para ir andando, ia me morrer exausto no caminho.

 Quando eu tentava voltar a pedalar, o vento me fazia acreditar que a subida teria sido uma escolha melhor, e eu não conseguia fazer nem um quilômetro inteiro pedalando. O lugar é muito bonito, os lagos são muito bonitos e o dia, apesar de ser cruel, estava lindo. Consegui encher a minha garrafinha de água várias vezes (devo ter bebido uns 10 litros durante o percurso até Rio das Ostras), comecei a ficar muito agoniado com o atraso. Não era para eu ficar agoniado. O Cansaço de não ter dormido, do vento castigando, da mochila que ficava cada vez mais pesada, a vontade de devolver a bicicleta que eu peguei "emprestada" em pouco tempo, me fez pensar em alguma coisas sobre o modo dessa viagem. Em saquarema eu não aguentei mais, peguei um quarto do meu orçamento, e comprei um bagageiro para a bicicleta, o que mudou a minha vida e me permitiu chegar em Rio das Ostras. Sem o bagageiro, nem nas mais de 12 horas que eu demorei, eu conseguiria chegar. Teria ficado à noite, no meio da estrada. Questões que me surgiram no caminho:



Lucas e a bicicleta.


O Lucas é meu amigo de infância, é curiosamente o cara que me ensinou a andar de bicicleta e uma das pessoas mais maravilhosas e bondosas que eu já conheci na Terra. Na semana em que eu decidi fazer essa viagem, ele tinha comentado que comprou uma bicicleta de 400 reais, porque a dele tinha sido levada pela prefeitura. Quando eu vi que a minha tinha sido roubada, desconfiei por vários motivos, que ele tivesse escondido a minha bicicleta afim de me impedir de fazer essa "loucura".
 Pensei " ah, se ele não puder me emprestar a bicicleta, eu pago os 400 reais e ele compra uma nova". Quando nos falamos ele estava agoniado, mas me deu força. Só que a bicicleta que eu peguei não era a que eu achei que tinha pego, era outra, bem mais cara e especial. Eu já estava pedalando na pressa, para devolver. Pressa é uma coisa que não pode fazer tipo de uma viagem dessas.

Depois minha bicicleta foi achada, e eu fiquei me sentindo super culpado. O Lucas que me ensinou a andar de bicicleta não merecia ter a bicicleta roubada por mim. A bicicleta que eu estava usando, eu não poderia comprar de longe. Precisava me replanejar para devolver essa bicicleta o quanto antes.



Os amigos da estrada.

Depois de pôr o bagageiro em Saquarema, me senti outra pessoa. O desespero foi embora, porque embora continuasse difícil fazer os 70 quilômetros restantes até chegar na casa de amigos em Rio das Ostras, agora parecia possível. Estava louco para chegar de novo na Amaral Peixoto e me livrar do vento. Ele era tão cruel que eu tinha que pedalar mesmo nas descidas.

Quando cheguei à Amaral Peixoto, depois de passar por Bacaxá, gastei 1 real em um sacolé de manga, que estava delicioso. Enchi novamente minha garrafinha de água em uma estação do corpo de bombeiros . A água estava super gelada. Pronto, rumo a Araruama, que era bem próxima. Porém, o vento continuava, e fazer subidas com vento era impossível. Depois de Araruama, com o tempo passando, acabei tentando pegar um ônibus, não consegui nenhum por causa da bicicleta. Desisti e resolvi confiar nas pernas. Apesar do medo de ficar a noite na estrada.

Iguaba Grande... São Pedro...

Depois de uns bons 40 quilômetros de sofrimento, o vento resolveu dar uma trégua. Cheguei sete e meia da noite em Rio das Ostras. Estava me sentindo como se tivesse pago uma penitência, fiquei uma hora pedalando no escuro, e efetivamente me senti arriscando a vida. Ao longo do caminho parei em alguns pontos,  lojas, bares, borracharias... Estava querendo reduzir minha pedalada, encurtar o tempo - uns caras que trabalhavam com o caminhão da coca-cola até queriam me dar uma carona, sinceramente, mas ficaram com medo da fiscalização- todos me diziam a mesma coisa: "se você quiser atravessar o país, vai para a BR-101, ou outras rodoviais nacionais, e para nos postos dos caminhoneiros. Muitos vão te ajudar."


O fim do dia.

Finalmente cheguei em Rio das Ostras. Tinha combinado com o Bruno Mattos, via facebook, militante do PSOL, trabalhador da área do meio ambiente, e ativista político também. Quando cheguei, o Bruno estava em uma audiência pública e eu fui recebido pela Mel, sua companheira.
Pude tomar um banho, e comer um estrogonoffe maravilhoso. (não vai rolar restrição vegetariana na viagem, vou comer o que me for ofertado, mas já estou diminuindo bem, de todo modo)

Fiquei dois dias pensando na vida e recebido em uma conchinha de felicidade partilhada e vida comunitária. São pessoas libertárias e maravilhosas, conseguimos ler um livro inteiro juntos.

Foi Incrível.


Retrocesso conjuntural e mudanças de planos.

Aí eu já tinha decidido que não queria pagar penitência e nem ficar com aquela bicicleta. Vou viajar sim, mas vou usar a bicicleta para mobilidade urbana e arranjar outros meios alternativos de cruzar os trajetos.

Voltei para o Rio de Janeiro de ônibus na quarta-feira. Devolvi a bicicleta do Lucas e peguei a que eu ia usar de volta.

Volto para a estrada segunda-feira. Melhor planejado.

Precisava do impulso. E conhecer a Mel e o Bruno.






2 comentários:

  1. mudança de planos?
    ah, você escreve muito bem.. e mesmo se não fosse sua amiga, amando você e preocupada, voltaria para mais informações.

    não perde seu equilíbrio pela exaustão, fica calmo e deixe-se maravilhar. respira fundo, foco e força.

    beijos, saudades, até breve.

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  2. Eu pensei que vc ia voltar assim que tivesse reatado com ela.
    Queria ser obstinada desse jeito rs!

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