Pelo menos me estimulou a sair bem cedo, e antes de 6:30 eu já estava pegando a estrada da Gamboa, rumo ao litoral de saquarema, para evitar as subidas mais acirradas da Amaral Peixoto. Logo cedo, na estrada de terra, consegui um pão com manteiga, água e uma maçã, em um bar desses de interior. Tinha pedido água e uma fruta, ganhei o pão com manteiga de camaradagem.
Quando eu tentava voltar a pedalar, o vento me fazia acreditar que a subida teria sido uma escolha melhor, e eu não conseguia fazer nem um quilômetro inteiro pedalando. O lugar é muito bonito, os lagos são muito bonitos e o dia, apesar de ser cruel, estava lindo. Consegui encher a minha garrafinha de água várias vezes (devo ter bebido uns 10 litros durante o percurso até Rio das Ostras), comecei a ficar muito agoniado com o atraso. Não era para eu ficar agoniado. O Cansaço de não ter dormido, do vento castigando, da mochila que ficava cada vez mais pesada, a vontade de devolver a bicicleta que eu peguei "emprestada" em pouco tempo, me fez pensar em alguma coisas sobre o modo dessa viagem. Em saquarema eu não aguentei mais, peguei um quarto do meu orçamento, e comprei um bagageiro para a bicicleta, o que mudou a minha vida e me permitiu chegar em Rio das Ostras. Sem o bagageiro, nem nas mais de 12 horas que eu demorei, eu conseguiria chegar. Teria ficado à noite, no meio da estrada. Questões que me surgiram no caminho:
Lucas e a bicicleta.
O Lucas é meu amigo de infância, é curiosamente o cara que me ensinou a andar de bicicleta e uma das pessoas mais maravilhosas e bondosas que eu já conheci na Terra. Na semana em que eu decidi fazer essa viagem, ele tinha comentado que comprou uma bicicleta de 400 reais, porque a dele tinha sido levada pela prefeitura. Quando eu vi que a minha tinha sido roubada, desconfiei por vários motivos, que ele tivesse escondido a minha bicicleta afim de me impedir de fazer essa "loucura".
Pensei " ah, se ele não puder me emprestar a bicicleta, eu pago os 400 reais e ele compra uma nova". Quando nos falamos ele estava agoniado, mas me deu força. Só que a bicicleta que eu peguei não era a que eu achei que tinha pego, era outra, bem mais cara e especial. Eu já estava pedalando na pressa, para devolver. Pressa é uma coisa que não pode fazer tipo de uma viagem dessas.
Depois minha bicicleta foi achada, e eu fiquei me sentindo
super culpado. O Lucas que me ensinou a andar de bicicleta não merecia ter a
bicicleta roubada por mim. A bicicleta que eu estava usando, eu não poderia
comprar de longe. Precisava me replanejar para devolver essa bicicleta o quanto
antes.
Os amigos da estrada.
Depois de pôr o bagageiro em Saquarema, me senti outra
pessoa. O desespero foi embora, porque embora continuasse difícil fazer os 70
quilômetros restantes até chegar na casa de amigos em Rio das Ostras, agora
parecia possível. Estava louco para chegar de novo na Amaral Peixoto e me
livrar do vento. Ele era tão cruel que eu tinha que pedalar mesmo nas descidas.
Iguaba Grande... São Pedro...
Depois de uns bons 40 quilômetros de sofrimento, o vento
resolveu dar uma trégua. Cheguei sete e meia da noite em Rio das Ostras. Estava
me sentindo como se tivesse pago uma penitência, fiquei uma hora pedalando no
escuro, e efetivamente me senti arriscando a vida. Ao longo do caminho parei em
alguns pontos, lojas, bares,
borracharias... Estava querendo reduzir minha pedalada, encurtar o tempo - uns
caras que trabalhavam com o caminhão da coca-cola até queriam me dar uma
carona, sinceramente, mas ficaram com medo da fiscalização- todos me diziam a
mesma coisa: "se você quiser atravessar o país, vai para a BR-101, ou
outras rodoviais nacionais, e para nos postos dos caminhoneiros. Muitos vão te
ajudar."
O fim do dia.
Finalmente cheguei em Rio das Ostras. Tinha combinado com o Bruno Mattos, via facebook, militante do PSOL, trabalhador da área do meio ambiente, e ativista político também. Quando cheguei, o Bruno estava em uma audiência pública e eu fui recebido pela Mel, sua companheira.
Pude tomar um banho, e comer um estrogonoffe maravilhoso. (não vai rolar restrição vegetariana na viagem, vou comer o que me for ofertado, mas já estou diminuindo bem, de todo modo)
Fiquei dois dias pensando na vida e recebido em uma conchinha de felicidade partilhada e vida comunitária. São pessoas libertárias e maravilhosas, conseguimos ler um livro inteiro juntos.
Foi Incrível.
Retrocesso conjuntural e mudanças de planos.
Aí eu já tinha decidido que não queria pagar penitência e nem ficar com aquela bicicleta. Vou viajar sim, mas vou usar a bicicleta para mobilidade urbana e arranjar outros meios alternativos de cruzar os trajetos.
Voltei para o Rio de Janeiro de ônibus na quarta-feira. Devolvi a bicicleta do Lucas e peguei a que eu ia usar de volta.
Volto para a estrada segunda-feira. Melhor planejado.
Precisava do impulso. E conhecer a Mel e o Bruno.

mudança de planos?
ResponderExcluirah, você escreve muito bem.. e mesmo se não fosse sua amiga, amando você e preocupada, voltaria para mais informações.
não perde seu equilíbrio pela exaustão, fica calmo e deixe-se maravilhar. respira fundo, foco e força.
beijos, saudades, até breve.
Eu pensei que vc ia voltar assim que tivesse reatado com ela.
ResponderExcluirQueria ser obstinada desse jeito rs!