O silêncio do mundo me matou. O seu silêncio me matou.
Novas cores me fazem despertar.
Leve acordar, eterno descobrir.
A dor, aos poucos, se cobre de esperança.
Eu sempre quis te ouvir.
Mas a hora é de mergulhar.
Dor, impossivelmente real, desconhecidamente certa. Dor física, chega como uma náusea impossível de conter. Dor, como há muito tempo eu não sentia. Dor de febre, dor de criança. Uma dor de devastação na floresta. Se tivesse um animal selvagem na minha caixa toráxica, vivo, tentando sair, provavelmente eu estaria menos incomodado.
Dor do mundo. Dor de mim. Dor de amor.
Vou me lavar com uma bucha de sol, estrada e fome.
Dar textura à minha cara, para vestir com a minha dor.
Sou livre.
Nada mais é necessário, nada.
"Just like a paper tiger Torn apart by idle hands Through the helter skelter morning Fix yourself while you still can No more ashes to ashes No more cinders from the sky All the laws of creation Tell a dead man how to die ...
There's one road to the morning There's one road to the truth There's one road back to civilization But there's no road back to you...."
No hospital de Maricá, depois de escrever aquele post, eu descobri que do lado de dentro não podia deitar (o amigo da foto no primeiro post logo depois foi perturbado pelo guarda municipal) e no banquinho de fora, apesar de estar bem seguro, com água e banheiro por perto, o frio era insuportável. Isso funciona assim para impedir que os moradores de rua de Maricá tenham um lugar seguro e razoavelmente não-violento para descansar. Ou seja: não dormi nem duas horas.
Pelo menos me estimulou a sair bem cedo, e antes de 6:30 eu já estava pegando a estrada da Gamboa, rumo ao litoral de saquarema, para evitar as subidas mais acirradas da Amaral Peixoto. Logo cedo, na estrada de terra, consegui um pão com manteiga, água e uma maçã, em um bar desses de interior. Tinha pedido água e uma fruta, ganhei o pão com manteiga de camaradagem.
Só que, conforme eu ia me aproximando do litoral, variando entre estradas de terra e asfaltadas, o chão ia ficando mais arenoso e o vento começou a castigar muito cruelmente. A mochila estava se tornando insuportável, e chegando à beira mar em Jaconé eu decidi, já que tinha partido bem cedo, descansar a mochila e ir andando. Com aquele vento, o chão de terra, e a mochila, se eu não parasse eventualmente para ir andando, ia me morrer exausto no caminho.
Quando eu tentava voltar a pedalar, o vento me fazia acreditar que a subida teria sido uma escolha melhor, e eu não conseguia fazer nem um quilômetro inteiro pedalando. O lugar é muito bonito, os lagos são muito bonitos e o dia, apesar de ser cruel, estava lindo. Consegui encher a minha garrafinha de água várias vezes (devo ter bebido uns 10 litros durante o percurso até Rio das Ostras), comecei a ficar muito agoniado com o atraso. Não era para eu ficar agoniado. O Cansaço de não ter dormido, do vento castigando, da mochila que ficava cada vez mais pesada, a vontade de devolver a bicicleta que eu peguei "emprestada" em pouco tempo, me fez pensar em alguma coisas sobre o modo dessa viagem. Em saquarema eu não aguentei mais, peguei um quarto do meu orçamento, e comprei um bagageiro para a bicicleta, o que mudou a minha vida e me permitiu chegar em Rio das Ostras. Sem o bagageiro, nem nas mais de 12 horas que eu demorei, eu conseguiria chegar. Teria ficado à noite, no meio da estrada. Questões que me surgiram no caminho:
Lucas e a bicicleta.
O Lucas é meu amigo de infância, é curiosamente o cara que me ensinou a andar de bicicleta e uma das pessoas mais maravilhosas e bondosas que eu já conheci na Terra. Na semana em que eu decidi fazer essa viagem, ele tinha comentado que comprou uma bicicleta de 400 reais, porque a dele tinha sido levada pela prefeitura. Quando eu vi que a minha tinha sido roubada, desconfiei por vários motivos, que ele tivesse escondido a minha bicicleta afim de me impedir de fazer essa "loucura".
Pensei " ah, se ele não puder me emprestar a bicicleta, eu pago os 400 reais e ele compra uma nova". Quando nos falamos ele estava agoniado, mas me deu força. Só que a bicicleta que eu peguei não era a que eu achei que tinha pego, era outra, bem mais cara e especial. Eu já estava pedalando na pressa, para devolver. Pressa é uma coisa que não pode fazer tipo de uma viagem dessas.
Depois minha bicicleta foi achada, e eu fiquei me sentindo
super culpado. O Lucas que me ensinou a andar de bicicleta não merecia ter a
bicicleta roubada por mim. A bicicleta que eu estava usando, eu não poderia
comprar de longe. Precisava me replanejar para devolver essa bicicleta o quanto
antes.
Os amigos da estrada.
Depois de pôr o bagageiro em Saquarema, me senti outra
pessoa. O desespero foi embora, porque embora continuasse difícil fazer os 70
quilômetros restantes até chegar na casa de amigos em Rio das Ostras, agora
parecia possível. Estava louco para chegar de novo na Amaral Peixoto e me
livrar do vento. Ele era tão cruel que eu tinha que pedalar mesmo nas descidas.
Quando cheguei à Amaral Peixoto, depois de passar por
Bacaxá, gastei 1 real em um sacolé de manga, que estava delicioso. Enchi
novamente minha garrafinha de água em uma estação do corpo de bombeiros . A
água estava super gelada. Pronto, rumo a Araruama, que era bem próxima. Porém,
o vento continuava, e fazer subidas com vento era impossível. Depois de
Araruama, com o tempo passando, acabei tentando pegar um ônibus, não consegui
nenhum por causa da bicicleta. Desisti e resolvi confiar nas pernas. Apesar do
medo de ficar a noite na estrada.
Iguaba Grande... São Pedro...
Depois de uns bons 40 quilômetros de sofrimento, o vento
resolveu dar uma trégua. Cheguei sete e meia da noite em Rio das Ostras. Estava
me sentindo como se tivesse pago uma penitência, fiquei uma hora pedalando no
escuro, e efetivamente me senti arriscando a vida. Ao longo do caminho parei em
alguns pontos, lojas, bares,
borracharias... Estava querendo reduzir minha pedalada, encurtar o tempo - uns
caras que trabalhavam com o caminhão da coca-cola até queriam me dar uma
carona, sinceramente, mas ficaram com medo da fiscalização- todos me diziam a
mesma coisa: "se você quiser atravessar o país, vai para a BR-101, ou
outras rodoviais nacionais, e para nos postos dos caminhoneiros. Muitos vão te
ajudar."
O fim do dia.
Finalmente cheguei em Rio das Ostras. Tinha combinado com o Bruno Mattos, via facebook, militante do PSOL, trabalhador da área do meio ambiente, e ativista político também. Quando cheguei, o Bruno estava em uma audiência pública e eu fui recebido pela Mel, sua companheira.
Pude tomar um banho, e comer um estrogonoffe maravilhoso. (não vai rolar restrição vegetariana na viagem, vou comer o que me for ofertado, mas já estou diminuindo bem, de todo modo)
Fiquei dois dias pensando na vida e recebido em uma conchinha de felicidade partilhada e vida comunitária. São pessoas libertárias e maravilhosas, conseguimos ler um livro inteiro juntos.
Foi Incrível.
Retrocesso conjuntural e mudanças de planos.
Aí eu já tinha decidido que não queria pagar penitência e nem ficar com aquela bicicleta. Vou viajar sim, mas vou usar a bicicleta para mobilidade urbana e arranjar outros meios alternativos de cruzar os trajetos.
Voltei para o Rio de Janeiro de ônibus na quarta-feira. Devolvi a bicicleta do Lucas e peguei a que eu ia usar de volta.
Volto para a estrada segunda-feira. Melhor planejado.
Arrumo tudo, me esvazio de todos os objetos de desejos, de todos os pensamentos, todos os personagens. Estou centrado, internamente desejoso, feliz. Abro a porta de casa, desço. Surpresa:
A bicicleta foi providencialmente roubada. Não acredito que alguém, um amigo, ou o destino, deliberadamente, tentou me impedir dessa forma de viajar. Por um segundo todo o ódio do destino me atinge, mas é só um segundo. Eu penso em fazer um boletim de ocorrência, mas na casa tem outra bicicleta, não é minha. Mas, eu deixo todo o meu equipamento profissional de fotografia como garantia, com um recado, e mais 100 reais, metade do que tinha separado para viagem.
Nada, naquele minuto, era mais importante para mim, do que ter uma bicicleta. Eu não ia desistir antes de começar, nem começar na delegacia.
Começo - Botafogo, Aterro do Flamengo, praça XV, barcas...
Em frente ao MAC, em Niterói, paro para tomar uma água de coco. O vendedor comenta da pressa despropositada das pessoas que estão passeando em pleno Domingo. Eu concordo, conto a minha história: a desilusão, a despedida, o desafio. Ele devolve o meu dinheiro. Ronaldo, o vendedor de coco de Niterói, foi a primeira pessoa boa comigo nessa viagem.
Continuo- Icaraí, Dr. Mario Viana, Estrada Caetano Monteiro (e dá-lhe subida), Estrada Velha de Maricá, Amaral Peixoto e é noite.
Chego em Maricá! Achando a bicicleta muito leve, estável, muito muito boa.O Flamengo vence o Vasco, eu converso com as pessoas, consigo guardar as minhas coisas em uma pousada. Na pousada me dão água e frutas. Passeio, entro em uma parque de diversão, vejo a roda gigante e sinto um amor imenso pelo mundo e uma gratidão com a vida. Eu não quero nada e me sinto livre. Me preparo para dormir na sala de espera do hospital público, que por algum motivo misterioso e divino, tem banda larga liberada.
Gastei 4,50 da barca.
Estou feliz.
Vou dormir com outro irmão sem melhor abrigo.
Djalma, meu irmãozinho, quantas pessoas pedalaram 3 mil kilometros para te dar um abraço?
Até breve, São Luis.